terça-feira, 28 de junho de 2011

Nós que nos Amávamos Tanto

A sessão Cult do Cine Líbero Luxardo do dia 4 de junho de 2011, além de ser uma homenagem ao diretor Ettore Scola feita pela ACCPA exibindo seu filme Nós que nos Amávamos Tanto (C’ Eravamo Tanto Amati, 1974), faz um reconhecimento a outros cineastas, com trechos do filme de Scola dedicados a eles.
Depois do início em cores, indicando a época atual dos personagens, 1974, volta-se a 1944, com imagens em preto e branco, com um grupo de combatentes italianos preparando explosivos para atingir um comboio de guerra alemão em uma gelada rodovia. Após o dispositivo de detonação ser acionado por um dos homens, a cena seguinte não é da explosão, mas sim de uma comemoração popular nas ruas da cidade. Um dos personagens faz a narração:

"- A Itália foi libertada. A guerra acabou e começou o pós-guerra. A paz nos separou. Em 1946, Gianni, Antonio e eu, cada um na sua cidade...participamos dos tempestuosos dias do referendo. Monarquia ou República?"

Antonio (Nino Manfredi), em Roma, retornou ao trabalho de antes da guerra, empregado no Hospital São Camilo; Nicola Palumbo (Stefano Satta Flores), em Nocera Inferiore, casou-se e era professor no Liceu Giambattista Vico e Gianni Perego (Vittorio Gassman), em Pavia, conseguiu se formar em Direito são os três personagens centrais da história e que, também, são narradores durante a ação. Antonio avança com o relato:

"- Para a história convém recordar que em 1947 ...De Gaspari obtendo dos EUA um empréstimo de 100 milhões de dólares...por acaso baniu do Governo comunistas e socialistas. Em seguida os funcionários cristão-democratas, protegidos pelas freiras...foram promovidos a enfermeiros...mas eu, que tinha um partido político diferente... permaneci como simples auxiliar.
[...]
- Mas foi também um ano maravilhoso...porque tive o grande encontro da minha vida."


Era uma bela paciente, tivera uma tontura e desmaiara na rua, Luciana Zanon (Stefania Sandrelli). O ideal dela era ser atriz.
Em estilo de documentário, Scola mostra os primeiros anos do pós-guerra situando o ambiente político e apresentando os personagens principais. Em seguida vai para a narrativa corrida. Após 54 minutos de filme o tempo dá um avanço significativo e, para marcar esse avanço, Scola volta ao colorido, em uma sequência de rara criatividade, na qual figuras desenhadas no chão vão recebendo cores, juntamente com o ambiente
Desde o início, o diretor estabeleceu uma parceria entre ele, os personagens/narradores e o espectador para desenvolver a história. Introduz, ainda, outro recurso: a câmera destaca um personagem com iluminação enquanto os outros ficam na penumbra e estáticos; o personagem focado, então, fala; o que ele diz é a expressão do próprio pensamento; a convenção é que ninguém o ouve na cena, nem mesmo o personagem a quem ele se dirige.
Ettore Scola utiliza-se, ainda, de inserções de trechos de filmes como Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica e uma sequência com Federico Fellini, simulando a preparação de uma cena de A Doce Vida; cenas estáticas de O Eclipse de Michelangelo Antonioni, intercaladas no monólogo de Elide (Giovanna Ralli), filha de Romulo Catennaci (Aldo Fabrizi), o capitalista corrupto e cínico, ela que se casara com Gianni; ao gravar um depoimento, ela se manifesta sobre os abismos da alma feminina e da comunicação com os mortos. Essa comunicação ela a faz com Gianni, mas ele vivo e ela morta, depois de um acidente de automóvel aparentemente provocado por ela. Esta cena é mais uma variação estilística. A cena não tem, na verdade, nada de comunicação dos mortos, é um recurso narrativo no plano temporal.
Outra sequência homenageia mais um grande cineasta. Nicola e Juliana estão no topo de uma escadaria e Antonio sentado no último degrau abaixo. Ele, subindo e descendo degraus, gesticulando, empolgado, descreve em detalhes, dramatizando com humor, a clássica sequência na escadaria de Odessa de O Encouraçado Potenkin, de Sergei Eisentein, realizado em 1925.
Em outro momento Ettore Scola usa uma sequência de um filme na qual a personagem de Kim Novak conversa com um personagem masculino. O diálogo apresentado, no entanto, é como se os personagens fossem Luciana e Antonio; a cena termina com um beijo; os dois assistiam ao filme.
Há uma sequência com Vittorio De Sica obtida de arquivo e inserida como se existisse no tempo do filme de Scola.
Ettore Scola não ideologiza o discurso, não é panfletário, mas não deixa de mostrar confrontos ideológicos, sendo que, um debate após a exibição de Ladrões de Bicicletas, no Liceu Giambattista Vico, onde Nicola dava aulas, é bem ilustrativo em relação à generalização de tendências radicais opostas.
Nós que nos Amávamos Tanto, com história, roteiro e diálogos de Agenore Incrocci, Furio Scarpelli e Ettore Scola, na diversidade temática e de estilos, é harmônico, sensível, vigoroso, contundente, sentimental, trágico, nostálgico... é uma prova da vitalidade de Ettore Scola há 40 anos, ainda vivo em 2011, com 80 anos e que mereceu aplausos ao final da exibição na sessão Cult do Cine Líbero Luxardo.

sábado, 26 de março de 2011

O SEGUNDO ROSTO

Minha primeira manifestação durante o debate, após a exibição de "O Segundo Rosto" (Seconds, EUA, 1966) na sessão Cult do Cine Líbero Luxardo de 12 de março de 2011 foi considerar a última sequência como de horror, com o terror pânico do personagem Antiochus ‘Tony’ Wilson (Rock Hudson) atingindo o espectador com a platéia atenta e em silêncio. Dirigido por John Frankenheimer, com roteiro de Lewis John Carlino baseado na novela de David Ely, o filme conta uma estranha história na qual o banqueiro Arthur Hamilton (John Randolph) tem a morte simulada por uma empresa que, também, se encarrega de renascê-lo realizando uma radical operação cirúrgica nele, que transforma totalmente seu aspecto físico além de dar-lhe a identidade de um artista, o pintor Antiochus ‘Tony’ Wilson, um renascimento desejado por Hamilton que não estava satisfeito com a vida que tinha, apesar do sucesso profissional alcançado por ele.
Com a nova configuração física Arthur/Tony vai passar por um processo de adaptação monitorado pela firma. É levado a novas experiências de vida acompanhado por Nora Marcus (Salome Jeus); ele pensa tê-la encontrado casualmente, mas depois sofre a frustração de saber que ela era empregada da empresa. Tony é envolvido por Nora que o leva a uma festa ao ar livre que tem o ponto culminante quando participantes do evento ficam nus, mulheres e homens, e entram em um enorme tonel para amassar uvas. Mais de uma dezena de pessoas se comprimem no recipiente, pisando nas uvas, caindo, esfregando-se umas nas outras por causa do exíguo espaço para tanta gente; estão alegres, riem totalmente descontraídas, soltas. É um momento crucial para Tony que, inicialmente, reage, não quer participar, mas é despido sob protestos seus e jogado no tonel; todos fazem festa, menos ele. Mas, da reação passa à aceitação e participação ativa no esmagamento das uvas, acaba integrando-se prazerosamente ao grupo. Parece um momento de libertação para ele.
Depois, sempre acompanhado por Nora, participa de uma festa, também organizada pela firma. É uma reunião social sofisticada, com participantes estranhos, na verdade são pessoas renascidas como ele, de comportamentos forçados. Tony bebe em excesso, até cair.
Após a ressaca ele consegue escapar do controle e volta à sua antiga residência para conversar com sua mulher Emily (Frances Reid) sem que ela saiba quem é ele; ele se diz amigo de Arthur. Enorme frustração. O perfil que ela faz do marido e da convivência que tivera com ele são decepcionantes.
Ele volta à firma, pretendendo um novo renascimento para que, então sim, ele possa reconstruir a vida sob controle próprio, ele mesmo tomando as decisões sem influência dos outros. No entanto, para que a firma aceite repetir o processo é preciso que Tony consiga um novo cliente candidato a renascimento, afinal a firma é uma empresa de negócios. Na verdade, ele próprio fora convencido a participar do renascimento por um velho amigo muito próximo, Charlie Evans (Murray Hamilton), dado como morto, ou seja, que já tinha passado pelo renascimento.
Como Tony não consegue tal candidato a firma o coloca na fase dois do processo: de candidato ao renascimento ele passa a ser candidato a cadáver. Claro, para cada simulação de morte de um cliente a empresa precisa de um cadáver para se passar pelo candidato ao renascimento. Ele é colocado em uma maca, pensa que vai passar por uma nova transformação física, uma nova operação cirúrgica, mas quando entende seu novo destino é tarde demais, pois ele está firmemente preso na maca, não pode escapar. O terror pânico pelo qual ele passa nesses momentos faz a platéia ficar em silêncio, é uma cena de horror.
Terminada a exibição, estabeleci mentalmente uma classificação para o filme: ficção científica e horror, com uma clara mensagem aberta a diversas interpretações. A mensagem: pessoas vivem insatisfeitas com suas vidas atuais apesar de bem posicionadas em suas atividades profissionais e buscam modificá-las, chegando a imaginar uma mudança radical; na novela de David Ely é incluída a mudança física radical.
Vi no filme um relato muito bem feito de uma experiência inusitada de transformação mal sucedida e que, a partir de uma nova transformação, apesar da experiência acumulada na primeira, uma nova tentativa também não daria certo. Na verdade, todos os renascidos, de fato, mais cedo ou mais tarde, seriam levados à segunda fase da experiência: ser cadáver.
Durante o debate houve uma manifestação, segundo entendi, mas não sei se foi isso mesmo, que considerava a segunda tentativa de renascimento com garantia de sucesso, pois Arthur/Tony, então, decidiria por si mesmo, estaria no comando de suas ações sem influência de outros, nem da firma. Claro que isto não seria possível, pois a presença da firma, por si só, exigiria controle externo. Mais uma triste ilusão no nível de entendimento do personagem; e não porque tal controle pessoal não seja possível. É possível, sim, mas com a mudança de referências e parâmetros de felicidade definidos por uma sociedade baseada no consumismo em bases materiais. Não falo aqui em religião, é outro plano, mas no plano puramente psicológico. Aliás, em relação à religião os autores são cínicos, ao apresentarem o religioso que vai acompanhar Arthur/Tony nos últimos momentos de vida. Ele pergunta qual a atual religião do condenado, mas se antecipa dizendo que está preparado para consolá-lo em qualquer religião, observação feita cinicamente.
Para concluir com menos especulação e mais objetividade, considero O Segundo Rosto um excelente filme. Frankenheimer, Carlino e Ely construíram uma ficção científica trágica significativamente pertinente em relação às insatisfações humanas, aos sonhos e delírios que nos acompanham. A funcionalidade com que são aplicados os recursos da linguagem cinematográfica, incluindo a mobilidade de câmera e os enquadramentos em grandes planos, deram à narrativa um clima adequado a uma história de ficção científica e de mistério, à qual os atores se integraram como elementos plausíveis e essenciais com interpretações convincentes. Destaque para John Randolph que viveu o personagem central como banqueiro e para Rock Hudson que o interpretou como artista, como pintor. O filme merece mais do que tem conseguido.

sábado, 12 de março de 2011

Um Dia Muito Especial

A parceria da ACCPA com o Sesc Boulevard, em Belém, foi iniciada no dia 10 de março de 2011 com a exibição do filme "Um Dia Muito Especial" (Una Giornata Particolare, Itália, 1977), dirigido por Ettore Scola. É muito especial, primeiro, porque é o dia da visita de Adolf Hitler à Itália, o dirigente alemão sendo recebido pelo italiano Benito Mussolini com grande mobilização da população, que vai, em massa, às ruas para participar ativamente do evento. Esse é o pano de fundo, pois a história se passa longe das comemorações, em um prédio residencial de classe média. Enquanto o marido e os seis filhos do casal vão se juntar às manifestações populares, a mulher, Antonietta (Sophia Loren) fica no apartamento cuidando das coisas da casa. Inadvertidamente ela deixa aberta a gaiola de um pássaro falante, mascote da família, que escapa pela janela, indo se posicionar em um apartamento no lado oposto do edifício. Ela sai em busca da ave, entra no apartamento de Gabriele (Marcello Mastroianni) e, com a ajuda do vizinho, consegue capturar o animal fugitivo. Homem e mulher mutuamente se atraem e vão estabelecer um relacionamento muito especial em una giornata particulare; este é o segundo motivo, e o principal, de ser um dia muito especial.
Ambos excluídos, ela uma mulher conformada com uma situação de opressão familiar, se distrai colecionando recortes de Mussolini, ele um locutor de rádio que havia sido dispensado do trabalho por ser um antifascista. Na verdade, ele fora demitido por ser homossexual, opção que é logo conhecida pelo expectador por meio de uma conversa telefônica de Gabriele, mas que Antonietta só saberá em momento posterior, opção esclarecida pelo próprio Gabriele em momento de explosão e descontrole.
Um processo de descobrimento vai se processando, de desnudamento mútuo em uma construção cinematográfica bem estruturada, fluente, clara, sem maneirismos, uma bela narrativa seqüencial. A simplicidade formal a serviço da sensibilidade foi muito bem trabalhada por Ettore Scola com a contribuição decisiva de Marcello Mastroianni e Sophia Loren, além de bela, excelente intérprete.
A abertura do filme com a chegada de Hitler à Itália, a população mobilizada para participar do evento, os cadenciados e rígidos desfiles militares, e a vibração do povo, mostram a massificação das pessoas pelas ideologias nazista e fascista em oposição à individualidade que vai sendo retratada dentro dos apartamentos. São dois mundos que se opõem. De um lado os anestesiados e cegos pelo poder, de outro, duas pessoas que buscam dentro de si mesmas um significado para a existência. A constante presença dos relatos, no rádio, das manifestações políticas que se processam paralelamente nas ruas, sobre as ações de Antonietta e Gabriele são um contraponto de forte conteúdo emocional. O drama pessoal dos dois não tem nada a ver com o que se passa lá fora, mas é mais importante porque é humano e consequentemente universal. Fora é a ilusão do poder político e militar.
O desafio do cineasta foi estabelecer a comunicação e o entendimento entre duas pessoas aparentemente sem nada terem em comum, inclusive sendo ele letrado e ela praticamente inculta, pelo menos formalmente. Gabriele força um presente para Antonietta, o livro Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, aliás, um romance instigante; de início ela despreza o livro.
Ações triviais, do dia-a-dia, no entanto, é que os aproxima: moer os grãos para fazer café, consertar uma luminária, escapar da maledicência de uma vizinha, pendurar roupas na corda, sendo que tudo começou com a fuga do pássaro. Paradoxalmente o tempo livre para Antonietta foi disponibilizado justamente por um marido opressor e admirador de Mussolini e de Hitler, ao levar todos os filhos para se unirem à população na recepção a Hitler. Deu tempo à mulher para encontrar Gabriele e se encontrar.
Primeiro a ilusão com Gabriele, um homem desejável, cordial, sensível, diferente do marido, um bruto. Depois o choque com a confissão desesperada de Gabriele. Tudo o que ela imaginara com ele desaba ao saber que ele é homossexual. E, finalmente, a compreensão, o entendimento, a aceitação, a comunicação, a eliminação da solidão. Certamente o marido não a terá mais, ela se nega a tentarem um sétimo filho; começa a ler Os Três Mosqueteiros. Ele vai ser extraditado, mas não irá mais se suicidar. A vida mudou para os dois. E Hitler e Mussolini, bem....Excelente filme de Ettore Scola.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

OS MELHORES FILMES DA DÉCADA 2001-2010

A Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA) reuniu-se no dia 19 de janeiro de 2011 para escolher os melhores filmes lançados no período 2001-2010 e que foram exibidos em Belém. A escolha recaiu sobre os seguintes filmes:

1. Arca Russa
2. Império dos Sonhos
3. Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças
4. Elogio do Amor
5. Fale com Ela
6. Ponto Final
7. Nossa Música
8. Sobre Meninos e Lobos
9. A Vila
Cidade de Deus

Houve empate entre “A Vila” e “Cidade de Deus”, mantendo-se ambos em nono lugar, sem desempate, critério que vem sendo adotado pela ACCPA nesses casos.


A minha lista de melhores está a seguir:

1. Império dos Sonhos (Inland Empire, 2006), de David Lynch
2. Arca Russa, ( Russkiy Kovcheg, 2002), de Aleksander Sokurov
3. Alexandra (Aleksandra, 2007), de Aleksander Sokurov
4. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry
5. A Religiosa Portuguesa (2009), de Eugène Green
6. A Vila, (The Village, 2004), de M. Night Shyamalan
7. Nossa Música (Notre Musique, 2004), de Jean-Luc Godard
8. Ponto Final (Match Point, 2005), de Woody Allen
9. Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009), de Quentin Tarantino
10. A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010), de David Fincher

19 jan. 2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Os Melhores do Cinema - 2010 - Belém

FILMES
1. A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green
2. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar
3. O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gilliam
4. A Rede Social, de David Fincher
5. À Prova de Morte, de Quentin Tarantino
6. A Origem, de Christopher Nolan
7. Preciosa, de Lee Daniels
8. O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella
9. Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen
10. Paris, de Cédric Klapisch

DIRETOR
Eugène Green, por A Religiosa Portuguesa

ROTEIRO ORIGINAL
Eugène Green, por A Religiosa Portuguesa

ROTEIRO ADAPTADO
Aaron Sorkin e Bem Mezrich, de A Rede Social

ATOR
Christopher Plummer, pelo papel de Dr, Parnassus

ATOR-COADJUVANTE
Andrew Garffield, em A Rede Social e O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

ATRIZ
Marion Cotillard, em A Origem

ATRIZ COADJUVANTE
Ellen Page, em A Origem

MONTAGEM
Sally Menke, de À Prova da Morte

CENOGRAFIA
De O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

FOTOGRAFIA
Quentin Tarantino, de À Prova da Morte

TRILHA SONORA
De A Rede Social

FIGURINO
De O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

EFEITOS ESPECIAIS
1. Bob Hollow, de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

ANIMAÇÃO
Toy Story 3, de Lee Unrich

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MR. NOBODY (2)

Segundo Gunnar Myrdal, citado por Alves (1993, p. 9) “A ciência nada mais é que o senso comum refinado e disciplinado.” Essa afirmação pode gerar uma extensa discussão sobre o que é senso comum e o que é ciência, no entanto não vou entrar nessa análise aceitando a afirmação como uma referência importante para defender o que, talvez, possa ser considerado o sentido inverso: a popularização da ciência. Acho que o cientista tem, entre suas responsabilidades, a de tornar, o mais possível, seus conhecimentos especializados acessíveis a uma parcela cada vez mais significativa da população. Na verdade, é um objetivo da educação ampliar a reflexão científica em todos os níveis escolares. Sabe-se, atualmente, que teorias complexas que anteriormente eram apenas compreendidas por seus formuladores e um pequeno grupo de privilegiados hoje em dia têm esse universo ampliado.

Jaco Van Dormael em Mr. Nobody ousou informar aos espectadores conceitos de complexas teorias com a finalidade de basear um trabalho de ficção de muita inventividade e criatividade. A obra dele, claro, é um trabalho artístico, não tem compromisso científico, mas desperta no espectador o espírito investigativo, vai além do estético. É por isso que fui buscar algo mais sobre a teoria das cordas.

A teoria das cordas (string theory) busca conciliar a mecânica quântica com a teoria geral da relatividade para se constituir em uma teoria de tudo (theory of everything – TOE), ou seja, uma única teoria capaz de explicar tudo o que acontece no universo. A ciência tem progredido com a formulação de teorias parciais que priorizam determinados aspectos e desprezam outros. Nesse caminhar permanente surgem novas e independentes ou derrubando e negando outras teorias que eram consideradas válidas até serem negadas pela experiência. O próprio Einstein se dedicou a tentar uma unificação, chegando até a negar a mecânica quântica, mas que, na verdade, contribuiu para seu desenvolvimento. (TEORIA..., 2010; STRING...,2010; HAWKING, 1988/2000)

Na teoria das cordas

[...] o objeto básico não são as partículas,que ocupam um único ponto no espaço, mas coisas que tem uma extensão e nenhuma outra dimensão, como pedaços de corda infinitamente delgada. Estas cordas podem ter fim (as chamadas cordas abertas) ou podem estar ligadas a si mesmas em laçadas fechadas (cordas fechadas) [...]. Uma partícula ocupa um ponto do espaço a cada instante do tempo. Assim sua história pode ser representada por uma linha no espaço-tempo (a “linha do universo”). Uma corda, por outro lado, ocupa uma linha no espaço a cada momento do tempo. Assim, sua história no espaço-tempo é uma superfície bidimensional chamada folha do mundo. (HAWKING, 1988/2000, p. 218)

Quando estudei Física e Química no Colégio Nazaré, nos anos 1955 a 1957, a composição do universo era estudada no nível da matéria, no nível molecular e no nível atômico. O átomo, embora mantendo o nome, deixara de ser a última divisão da matéria, estudávamos que era composto de prótons, nêutrons e elétrons; só até aí.

No estudo da teoria das cordas, a wikipedia descreve seis Níveis de Ampliação (Levels of Magnification): 1. Nível Macroscópico – Matéria. 2. Nível Molecular. 3. Nível Atômico – Prótons, nêutrons e elétrons. 4. Nível Subatômico – Elétron. 5. Nível Subatômico – Quarks. 6. Nível das Cordas. (TEORIA..., 2010; STRING..., 2010). Os quarks são partículas que compõem os prótons e os nêutrons. Vejamos, então, como evoluiu o conhecimento sobre a matéria do universo.

Aristóteles considerava que a matéria do universo era composta de quatro elementos básicos: terra, ar, fogo e água. As forças atuantes eram duas: a gravidade e a leveza. A gravidade agia sobre a terra e a água empurrando-as para baixo e a leveza fazia com que o ar e o fogo subissem. Para ele a matéria era contínua, o que significava que sempre se poderia dividi-la, nunca se atingiria uma partícula que não pudesse ser dividida. Demócrito e outros gregos, porém, consideravam que a matéria era granulosa de tal modo que se chegaria a uma partícula indivisível. Por longo tempo essas duas concepções sobre a matéria permaneceram sem qualquer prova que reforçasse uma ou outra. (HAWKING, 1988/2000, p. 97)

Em 1803, John Dalton estabeleceu o conceito de molécula, agrupamento de átomos em componentes químicos. Em 1905, Einstein, explicando o movimento browniano – “movimento irregular e casual das pequenas partículas de poeira suspensas num líquido – poderia ser explicado como o efeito dos átomos do líquido colidindo com as partículas de poeira.” Mesmo antes, já se pensava que os átomos não eram indivisíveis: “J. J. Thomson demonstrara a existência de uma partícula de matéria, chamada elétron, com massa inferior a um milésimo daquela do átomo mais leve”. Em 1911, “Ernest Rutherford finalmente demonstrou que os átomos da matéria tem uma estrutura interna: são formados por um núcleo extremamente pequeno, carregado positivamente, em torno do qual gira um número de elétrons [...]”. Em 1932, James Chadwick descobriu que além do próton (primeiro), a partícula do núcleo carregada positivamente, “o núcleo continha outra partícula, chamada nêutron, com quase a mesma massa que o próton, mas sem carga elétrica [...]” (ibidem, p. 98-99). Aliás, foi essa a composição do átomo que estudei no colégio. Mas as experiências continuaram e no final da década de 1960 descobriu-se que “um próton ou um nêutron é formado por três quarks”. (ibidem, p. 100)

Ainda se pode citar o neutrino (uma partícula extremamente leve), o pósitron (a antipartícula do elétron), o gráviton (partícula sem carga), os bósons, os mésons, o antiquark, o glúon,...

A cada vez que leio mais sobre a origem, composição e funcionamento do universo, novos conceitos vão surgindo, novas teorias explicativas. Para o leitor que já está achando que me desviei muito do comentário sobre Mr. Nobody, eu acho que sim, peço que deixe estas explicações se não se interessar por elas, e avance para o trecho diretamente associado ao filme. Peço desculpas, mas não consigo cortar abruptamente, pelo menos até que ache ter dado uma razoável ideia sobre o que comecei. Vou continuar. Culpa de Van Dormael...

O marquês de Laplace, no início do século XIX, propôs uma doutrina que considerava que o universo “era absolutamente determinístico”.

[...] Laplace sugeriu que deveria haver um conjunto de leis científicas que permitiriam prever tudo que acontecesse no universo, bastando para tanto que se soubesse o estado completo do universo num determinado momento [...]. (HAWKING, 1988/2000), p. 85)

O cientista francês chegou ao ponto de “assumir que existem leis similares governando tudo o mais, inclusive o comportamento humano”. (ibidem)

Em 1926 essa especulação acabou quando Werner Heisenberg “formulou seu famoso princípio da incerteza. A fim de prever a posição e a velocidade futuras de uma partícula, devemos ser capazes de medir, com precisão, sua posição e velocidades atuais” (ibidem, p. 86). O trabalho de Weisenberg foi baseado no que Max Planck, em 1900, sugeriu: “que a luz, os raios X e outras ondas não pudessem ser emitidas a uma razão arbitrária, mas apenas em determinadas quantidades que chamou de quanta” (ibidem). Sintetizando: “Princípio da Incerteza – nunca podemos estar certos quanto à posição e à velocidade de uma partícula; quanto mais acuradamente se conhece uma, menos acuradamento conhecemos a outra” (HAWKING, 1988/2000, p. 252). Então, “não se pode certamente prever eventos futuros com precisão, uma vez que também não é possível medir o estado presente do universo!” (ibidem, p. 88)

Outra importante constatação que deve ser levada em conta é a dualidade partícula-onda. Vejamos o que diz Hawking sobre isso:

Ainda que a luz seja formada por ondas, a hipótese quântica de Planck sustenta que, sob algumas formas, ela se comporta como se fosse composta de partículas: só pode ser medida ou absorvida em quantidades ou quanta. Igualmente, o princípio da incerteza de Heisenberg implica que as partículas se comportem como ondas em algumas situações: não se localizam em posição definida, mas estão espalhadas segundo determinada distribuição de probabilidade [...]. Existe na mecânica quântica, portanto, uma dualidade entre ondas e partículas: para alguns propósitos é útil pensar nas partículas como ondas, e para outros, é melhor pensar nas ondas como partículas. [...] (ibidem, p. 89-90)

Ainda não tratei neste texto sobre as forças entre as partículas do universo. “Todas as partículas conhecidas do universo podem ser divididas em dois grupos: as de spin – 1/2, que formam a matéria do universo, e as de spin – 0, 1 e 2 que, como veremos adiante, dão origem às forças entre as partículas de matéria”. (ibidem, p. 103)

As partículas portadoras de força podem ser agrupadas em quatro categorias, de acordo com a grandeza da força que carregam e as partículas com as quais interagem. Deve-se observar que essa divisão em quatro classes é artificial; torna-se necessária à construção de teorias parciais, mas pode não corresponder a nada mais profundo. Ultimamente a maior parte dos físicos espera encontrar uma teoria unificada que explique as quatro forças como aspectos diferentes de uma única força [...] (ibidem, p. 105-106)

Não vou avançar na apresentação do que já foi feito nesse sentido, da unificação, vou apenas citar essas categorias: a força gravitacional, à qual “toda e qualquer partícula sofre [...], de acordo com sua massa ou energia. A gravidade é, de longe, a mais fraca das quatro forças; [...]”. Já a força eletromagnética é a que interage com partículas carregadas de eletricidade como elétrons e quarks. A força nuclear fraca é responsável pela radioatividade. “A quarta categoria é a força nuclear forte que mantém os quarks juntos no próton e no nêutron, e estes, por sua vez reunidos no núcleo de um átomo. [...] (HAWKING, 1988, 2000)

Voltando à teoria das cordas, não, melhor voltar ao filme, a partir do plano que mostra as três meninas Anna, Elise e Jeanne, no momento em que ocupam o mesmo lugar no espaço e no mesmo tempo. Tinham se passado apenas 23 minutos de filme e Dormael já indicara, com toda a clareza, que Nemo tinha tido três vidas, três relacionamentos independentes com três mulheres. Cabe mostrar como isto se deu; a primeira indicação é de que o período de tempo foi o mesmo, melhor, o período de vida dele foi os mesmo, três caminhos independentes, ao mesmo tempo, no mesmo espaço?

Se interrogações existem na cabeça do espectador, no entanto, Dormael, a partir desse momento, deixa bem claro o que ele vai explorar. Os pedaços que ele reuniu, aliás, muito bem, adquiriram consistência lógica, lógica dentro do campo ficcional, claro. Reafirmo que, apesar de todo o aparato de caráter científico, Dormael está, na verdade, enfocando a análise de situações e problemas de caráter predominantemente humano, colocando no centro do filme a questão da decisão diante do sentido único do tempo, sempre para a frente, para o futuro.

A pergunta que surge, a partir dessa primeira montagem de fatos, poderá ser: como começaram os relacionamentos com cada uma das mulheres? O primeiro a ser esclarecido é com Anna quando ainda eram crianças.

Um corte e a cena das três meninas juntas que registrei é seguida pelo ambientes onde meninos e meninas nadam em uma grande piscina. Nemo (Thomas Byrne) tem 9 anos de idade. Já fora da piscina, ele fixa os olhos em uma menina, também de olhos azuis. É Anna (Laura Brumagne), linda. Música romântica. Ele a olha fixamente e persistentemente; eles estão em lados opostos da piscina. Anna se atira do trampolim, nada sensualmente. Nemo continua a admirá-la, agora ela esta na borda da piscina, enxuga os cabelos e olha-o também. A cena muda, o tempo avança um pouco, o ambiente não tem mais ninguém, apenas Nemo está no trampolim. Ele se joga, vai afundando. Há um corte na cena e o foco passa para Nemo adulto (Jared Leto) no carro debaixo d’água; ele está pensativo. Novo corte e volta-se para Nemo menino no fundo da piscina, parece que ele está se afogando. Surge Jeanne (Linh Dan Pham), mulher adulta, que vem nadando na direção de Nemo no carro. Novo corte; a imagem agora é de Nemo garoto se afogando, um homem vem nadando para salvá-lo, tira-o da água. Uma rápida volta a Nemo (Jared Leto) com 118 anos e ao jornalista (Daniel Mays) que o entrevista.

Como se vê, em cenas seguidas e alguns cortes rápidos Domael focaliza três períodos de tempo. A essa altura o espectador já está familiarizado com essas diversas alternativas e os cortes abruptos fluem naturalmente na narrativa; após cada um sabes-se para onde se foi. Domael tem clara intenção ao voltar a Nemo com 118 anos: os fatos anteriores a 2092 são lembranças do velho, pouco a pouco a memória dele vai voltando, às vezes muito rapidamente, o médico explicou esse fenômeno. Aliás, as mudanças de tempo, de ambiente e de atores, por conta das idades dos personagens, são trabalhadas por Jaco Van Dormael com extrema habilidade e criatividade. O diretor é um exímio compositor mantendo ritmo e continuidade do início ao fim, priorizando o drama humano com uma história fantástica e de ficção científica.

As decisões humanas, a dificuldade em tomá-las, sobretudo em momentos cruciais, e os consequentes efeitos negativos, em várias situações não previstos, são realçados no filme; daí os retornos no tempo para alterá-las, tentar corrigir as conseqüências indesejáveis.

A primeira decisão não foi tão difícil para Nemo: a escolha dos pais. Mas a seguinte foi traumática. Começa cronologicamente no filme após a sequência em que Nemo é salvo do afogamento na piscina e volta-se rapidamente à Nemo e às suas lembranças quando tinha 9 anos.

Nemo vê a mãe com outro homem, beija-o, ela trai o pai dele (lembrei-me de Os Incompreendidos, de François Truffaut). Em seguida há uma discussão violenta entre os pais; vão se separar. Dormael escolhe uma parada de trem para a despedida da mulher, ela irá em frente, o homem fica. E Nemo tem que tomar uma decisão radical: ficar com o pai (Rhys Ifans) ou ir com a mãe (Natasha Little). A composição dessa sequência é muito bem elaborada com idas e vindas no tempo cronológico em questão de segundos mostrando as duas opções alternadamente. Certamente a angústia maior ficou para Nemo; as crianças, nessas situações, são as grandes vítimas inocentes. No final do evento fica a dúvida, explicitada na volta a Nemo com 118 anos; o jornalista questiona o velho: “Sinto muito, não entendi. Você ficou com seu pai ou foi com sua mãe?” O ancião fica pensativo, mas não responde e rapidamente Dormael nos leva de volta ao garoto com o pai:

- Papai, é minha culpa?

- É claro que não. É minha culpa.

Mas o que vai ser seguida é a linha da vida de Nemo com a mãe. Dormael é, realmente, um exímio manipulador, um mestre em jogar com tempo e espaço no cinema e pula para a época em que Nemo (Toby Regbo) tem 16 anos e Anna (Juno Temple) 15. Nessa altura, Nemo diz que é capaz de prever o futuro.

Novo salto e Nemo adulto encontra Anna (Diane Kruger), casada e com filhos. Ele quer mudar essa situação. Depois de conversar rapidamente com ela, ele tira da carteira uma fotografia, olha-a; é o local onde se deu o momento em que ele disse uma frase a Anna, adolescente com 15 anos, e que a afastou do seu caminho. A foto se transforma no ambiente real, real no filme, é claro, momento imediatamente antes dele pronunciar a frase crítica. Ele, então, novamente incorporado ao ambiente, à chegada de Anna, muda a explicação agressiva anterior para não ir nadar e que a afastara dele: “Não vou nadar com idiotas.” Agora se torna humilde, carente, não vai nadar porque ele não sabe, e Anna fica com ele na praia, e o futuro vai mudar. É a teoria do caos aplicada à vida comum das pessoas: pequenas mudanças podem influenciar decisivamente o futuro, neste caso uma simples frase.

Em outro momento Dormael muda o local e a linha de vida, mas mantém Nemo, na passagem e antes, com a mesma idade, 16 anos. A mudança se dá modo inverso à anterior. É feita a partir de uma cena em que Nemo está deitado na cama após escapar de ser pilhado pela mãe dormindo com Anna. Já vimos que o homem que ficou com a mãe de Nemo é o pai de Anna, Harry (Michael Riley); os dois tratavam Anna e Nemo como irmãos, o que revoltava os jovens. Sim, vamos à mudança. Nemo está deitado na cama; a câmera o foca em plano próximo, vai se afastando, sai pela janela do prédio em alta velocidade, mostrando no final do movimento um plano geral de muitos prédios, plano que se torna estático, transforma-se em uma fotografia que está em cima de uma mesa de uma sala do apartamento do pai de Nemo, que está em cadeira de rodas, ele está paraplégico. Nemo cuida dele, dá-lhe banho, há sete anos não vê a mãe, o rapaz a despreza. O pai acha que Nemo deve sair mais de casa para se divertir, Nemo diz que tem tudo o que precisa, mas, na verdade, está revoltado com a situação, o que é demonstrado quando, na sequência seguinte, ele dirige aos gritos uma motocicleta em velocidade. E vem mais, uma incrível viagem de Nemo ao espaço, no futuro, que Dormael introduz com a maior naturalidade apesar de ser completamente diferente das idas e vindas anteriores. Vejamos.

Depois de correr gritando na moto, Nemo volta para casa, vê o pai dormindo na cama, é noite. Senta-se diante de uma máquina de escrever, coloca papel e começa a apertar as teclas. É bom lembrar que, àquela altura, 1991, o computador já substituira a máquina de escrever tradicional, mas Dormael preferiu a velha máquina, e ainda máquina manual. Ele escreve:

(After three months and six days of travel, the shuttle was heading directly to cancer...)

[...] Depois de três meses e seis dias de viagem, a nave espacial foi direto para o câncer distante, entre Marte e Urano e suas cinco luas.

A câmera mostra desenhos de naves e foguetes na parede do compartimento e em seguida uma enorme nave no espaço. E Nemo adulto, congelado, em uma cápsula individual de manutenção de vida latente. Volta-se à Terra, ele continua teclando na máquina de escrever:

Finalmente se aproxima de Marte e suas colônias

A câmera foca Nemo teclando, adolescente, e depois ele adulto, na câmara de sobrevivência. Ele escreve:

A bordo o computador estava avaliando tudo

Imagens luminosas do interior da cabeça de Nemo, é o controle fisiológico feito pelo computador. Volta-se à máquina de escrever, logo em seguida à boca de Nemo, ele despertando do congelamento, a máquina, a boca com gelo:

Grace (Beleza)

A câmera vai se afastando e passa a abranger várias câmaras de sobrevivência com pessoas congeladas, devem, também, estar despertando, o computador está no controle, é a chegada a Marte. Canto lírico. Novo corte brusco. Agora Nemo, adolescente, está caminhando na rua, é noite, observa um local iluminado, muitas pessoas se aglomeram à porta; joga uma moeda para cima,mas não consegue apará-la, ela cai em um esgoto de água, passa pela grade de proteção e perde-se. Nemo terá que decidir sem a ajuda da moeda. Ele resolve entrar no prédio iluminado, com várias outras pessoas, é uma boate. Certamente ele resolveu atender à recomendação do pai para que saísse mais, se divertisse. É nesse ambiente que ele começa o relacionamento com Elise (Clare Stone), quando ela tinha 15 anos , e também com Jeanne (Audrey Giacomini) com a mesma idade. Aliás, Jeanne é escolhida porque Elise o rejeitou. O relacionamento com Elise começou após um descontrole da moça na boate e com ela Nemo teve a vertente de vida mais complicada. Depois desse confuso encontro, Jacob Van Dormael volta a explicações de natureza científica (ou pretensamente científicas), muda novamente o estilo da narrativa, introduz informações que, no filme, são geradas em um estúdio de televisão

O que acontece quando nos apaixonamos [a imagem de um cérebro iluminado, azulado, surge na tela]

Como resultado de certos estímulos [a imagem torna-se dinâmica, surgem filamentos iluminados]

Liberam-se várias cargas de endorfinas. Mas por que exatamente essa mulher ou esse homem [aparece uma imagem de Elise, um grande plano, ela olha para a câmera, para o espectador; segue-se uma imagem semelhante de Nemo. A câmera se aproxima mais de Nemo.]

Há uma liberação de feromonas que correspondem [Imagens de luzes amarelas e avermelhadas, grande plano de Elise de perfil]

Ou há características físicas que reconhecemos [Imagem de perfil da mãe de Nemo, os olhos aparecem em detalhe]

Os olhos da mãe, um perfume que estimula, uma bonita lembrança. [Detalhes do rosto da mulher e a imagem de Nemo, adulto, é ele quem fala, ele é o apresentador. À direita dele um beijo cinematográfico e um casal.]

LOVE IS

O amor é parte de um plano? Um plano para reprodução.

Dormael continua detalhando em palavras e ilustrando com imagens sua exposição sobre o relacionamento humano, o amor, com base na fisiologia, na influência dos hormônios, das secreções internas do corpo, fala de bactérias e vírus, a luta do ser humano contra eles:

Contra isto respondemos com as mais poderosas armas. [Ilustração com partes de figuras de homem e de mulher, depois cena erótica, de um casal em relação sexual. E o apresentador Nemo continua:

Sexo. Dois indivíduos mesclando seus genes. [Cenas de casais beijando-se ardorosamente, com fúria.]

Criando um indivíduo que resiste aos vírus melhor [cenas de sexo, células flutuantes.]

Quanto mais similar seja. Somos organismos participantes entre ujma guerra entre 2 modos de reprodução.

A

WAR

BETWEEN

2 MODES OF

REPRODUCTION

E, então, Dormael vai mudar novamente o estilo narrativo. Nemo é interrompido por uma voz feminina: “Certo todos. É tudo por hoje.” Na verdade, Nemo está em um estúdio de televisão, um plano geral do ambiente é mostrado com equipamentos e pessoas que trabalham no programa que Nemo estava apresentando no filme. E é do estúdio que Nemo fala com Anna (Diane Kruger), mulher adulta, através de telefone celular:

- Olá querido.

- Chegarei mais tarde.

- Não tem problema.

- Amo você.

- Te amo mais.

- Eu mais.

- Está bem.

- Está bem.

- Trapaceiro.

- Bem, vejo você depois.

E Nemo sai do estúdio, dirigindo um carro. Quase atropela um ciclista. É um aviso. Nemo sai dirigindo por uma estrada, ele está só no veículo. Um passarinho, que estava pousado na pista, voa à aproximação do veículo e bate violentamente no para-brisa do carro. Sangue no vidro. Nemo se espanta, se atrapalha na direção, o veículo derrapa, sai da estrada e vai se projetar em um rio, vai afundando. O interior do veículo vai se enchendo de água, Nemo tenta escapar, ainda consegue fechar o vidro [música lírica]. Um porta-retratos com foto de Anna e duas crianças flutua dentro do veículo; Nemo olha-o. Um tubarão se aproxima, Nemo o vê pelo vidro lateral. A cena muda bruscamente e foca um prato de comida com um pequeno peixe e acompanhamentos; e Nemo:

- Sempre gostei de pescado.

Volta-se para Nemo no fundo do rio:

- Nunca pensei que algum dia ela também gostaria.

O tubarão investe violentamente contra a janela lateral do carro a ponto de tomar toda a cena, escurecendo-a. Novo corte nos leva novamente ao médico conversando com Nemo no ano 2092. Ele induz o velho a se lembrar do passado. E ele se lembra, é mostrada uma relação sexual dele e Anna, adolescentes.

Os eventos vão se interconectando, se encaixando como peças do quebra-cabeça que o diretor iniciou com um evento qualquer e foi apresentando eventos inusitados.

Jaco Van Dormael utiliza outro mecanismo para realizar a volta no tempo, diferente dos cortes abruptos, e que são utilizados no filme quando a distância do futuro para o passado é pequena. Aliás, Stephen Hawking utilizou o cinema como exemplo exatamente para ilustrar como poderia se dar uma reversão no tempo. Vejamos isto primeiro no filme.

Nemo está parado, em uma motocicleta, diante da casa de Elise, ele tem 16 e ela 15 anos; há pouco se encontraram na boate, um encontro em que a moça apresentou um comportamento significativamente estranho, mas que tocou Nemo sentimentalmente. Ela sai de casa e logo atrás vem um rapaz; ela vê Nemo. Na verdade, o jovem está com ela. Decepcionado, Nemo dá a volta na moto e vai embora. Sai em velocidade pela estrada. Na pista, uma folhinha lembra a folha em que se transformou a borboleta vinda do Japão e que interferiu no encontro entre o pai e a mãe de Nemo; o efeito borboleta ilustrativo da teoria do caos. A pista está molhada, a moto derrapa justamente na folha. Nemo se fere gravemente, é conduzido de ambulância para um hospital; está muito machucado numa cama, mas percebe, sem poder se mexer, o que está acontecendo em volta. Ouve-se o pensamento dele, claro, um recurso do cinema:

- Alguém entrou. Se pudesse pelo menos mover meus dedos, ou meus olhos. [Duas enfermeiras dialogam:

- Acha que ele pode nos escutar?

- Eu não sei.

E ele, pensando, o pensamento trazido ao espectador por palavras dele mesmo, uma convenção da linguagem cinematográfica:

- Quem é? O que faço aqui?

Uma enfermeira fala:

- Se você pode me ouvir, mova os dedos.

Ele pensa com rapidez:

- Tenho que sair daqui. Retornar antes do acidente. [imagens superpostas de Nemo se alteram na tela, acho que indicando agonia.]

Então, a câmera inicia velozmente um movimento de saída do quarto, de retrocesso. Faz, em sentido contrário, o percurso feito por Nemo para chegar ao hospital no veículo que o transportou, depois saindo de maca da ambulância, movimento contrário ao resgate, levantando-se do chão e pulando para a moto, recuando sempre até chegar novamente em frente à casa de Elise. Na verdade é o filme projetado em sentido inverso à filmagem. Uma situação semelhante, mas de poucos segundos, foi mostrada antes e que já registrei: o carteiro andando para trás, em movimento inverso ao caminhar, após deixar uma foto na casa de Nemo e Elise; no entanto, neste caso, o carteiro faz o movimento inverso, mas um carro que passa na rua, desloca-se normalmente para frente. Aliás, Hawking (1988/2000, p. 200-201) faz um registro interessante sobre o sentido do tempo, do futuro para o passado, e exatamente usando a projeção de um filme para ilustrar:

[...]. De fato, existe uma grande diferença entre as direções para frente e para trás do tempo real na vida comum. Imagine-se uma xícara de água caindo de uma mesa e se quebrando em muitos pedaços no chão. Se filmamos este evento, pode-se facilmente dizer se o filme está sendo projetado para frente ou para trás. Se o projetarmos para trás, ver-se-ão os cacos subitamente se reunindo sobre o chão e pulando para cima a fim de formar uma xícara inteira sobre a mesa. Pode-se dizer que o filme está sendo projetado para trás porque este tipo de comportamento não é nunca observado na vida cotidiana. [...]

Hawking, em seguida, dá a explicação científica do por que de não se ver na vida real xícaras serem recompostas depois de terem sido quebradas:

A explicação que usualmente se dá para o porquê de não se ver rotineiramente xícaras quebradas reunindo seus cacos no chão para saltar sobre a mesa é que isto contradiz a segunda lei da termodinâmica, que afirma que, em qualquer sistema fechado, a desordem, ou entropia, sempre aumenta com o tempo. Em outras palavras, é uma forma da lei de Murphy: as coisas sempre tendem a ser malsucedidas. Uma xícara intacta sobre a mesa representa um estado de alta organização, mas uma xícara quebrada no chão encontra-se em estado desordenado. Pode-se ir da xícara sobre a mesa no passado para a xícara quebrada no chão no futuro, mas não na direção inversa. (ibidem, p. 201)

Como o tempo é fundamental no filme de Jaco Van Dormael, vou continuar citando Hawking para mais associações:

O aumento da desordem ou entropia através do tempo é um exemplo do que se chama uma seta do tempo, algo que distingue o passado do futuro, dando a direção do tempo. Existem pelo menos três setas de tempo. Primeiro a seta do tempo termodinâmica, a direção do tempo em que em que a desordem ou entropia aumenta. Depois há a seta psicológica do tempo; esta é a direção em que sentimos o tempo passar, a direção em que nos lembramos do passado, mas não do futuro. Finalmente existe a seta cosmológica do tempo, que é a direção do tempo em que o universo se expande mais do que se contrai. (ibidem, p. 201)

No filme Mr. Nobody há uma situação semelhante à quebra de um copo como relatado por Hawking só que o objeto é um vaso. O fato ocorre quando os pais de Nemo brigam por causa da traição da mulher, situação que já registrei, mas vou repetir e detalhar por causa do vaso quebrado. Nemo tinha 9 anos e viu a mãe beijando-se com um estranho. Homem e mulher discutem violentamente, cara a cara; aparecem de perfil para o espectador; ao fundo, pendurada na parede, uma foto emoldurada do casal e um móvel sobre o qual repousa um vaso vermelho. Furioso, o homem pega o vaso e atira-o com força no chão. A câmera, de cima para baixo foca o vaso caindo e estilhaçando-se no chão. O vaso, no entanto, vai ser recomposto, no movimento inverso à queda, os pedaços são reunido no chão e o vaso em seguida pula para o móvel; é o Big Crunch, a contração do universo que vai se processando com a reversão do tempo nas sequências finais do filme

Nemo usava com freqüência uma moeda para tomar decisões, decidia com cara ou coroa; ele chegou a gravar em uma moeda Yes de um lado e No do outro, mas em dado momento ele resolveu definir sua vida, não deixando o acaso dirigi-la, segundo ele próprio. Essa mudança de comportamento aconteceu logo após ele conhecer Jeanne na boate, e tê-la escolhida porque Elise ficara com outro. Ele sai da boate com Jeanne na garupa. Enquanto dirige a moto ouve-se ele falando:

- Primeiro: nunca deixaria nada ao acaso de novo. Segundo: eu vou casar com a garota na minha moto.

Uma rápida imagem dele e Jeanne descendo as escadas da igreja após o casamento.

- Terceiro: vou ser rico.

Volta a imagem deles na moto; agora Nemo fala:

- Quarto: vamos ter uma casa. Uma casa grande.

Aparece uma casa.

- Pintada de amarelo com jardim.

Aparece a imagem descrita.

- E dois filhos, Paul e Michael.

Aparece um, depois outro menino. Volta a imagem de Nemo e Jeanne na moto.

- Quinto: vou ter um conversível vermelho e uma piscina.

E aparece um conversível azul claro que rapidamente muda de cor para vermelho. Em seguida uma piscina.

- Eu aprenderei a nadar.

Volta-se à imagem com a moto.

- Sexto: não me deterei até que tenha êxito.

Após este registro em que Nemo declara que vai mudar, ser mais ativo nas definições de seu futuro, não aceitando ser passivo na vida, na verdade reativo, eu tinha pensado em comentar a última sequência do filme e tecer as considerações finais. No entanto, surgiu o interesse em ler mais sobre a teoria do caos e fazer associações mais diretas a Mr. Nobody. É o que vou fazer a seguir, e depois, concluir o comentário.

Referências

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência; introdução ao jogo e suas regras. 18 ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.

HAWKING, Stephen W. Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. Tradução de Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1988/2000.

STRING theory (25 oct. 2010). Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/String_theory. Acesso em: 28 out. 2010.

TEORIA das cordas. (01 out. 2010). Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_cordas. Acesso em: 28 out. 2010).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MR. NOBODY

Big Bang, a Grande Explosão, o início de tudo e Big Crunch, o Grande Esmagamento, a singularidade do fim do universo, duas teorias, a primeira quando começou a expansão e a segunda o final da contração do universo.

A descoberta de que o universo está em expansão foi uma das grandes revoluções do século XX [...]. Newton e outros devem ter se dado conta de que um universo estático logo começaria a se contrair sob a influência da gravidade. Suponhamos em vez disso, um universo em expansão. Caso estivesse se expandindo muito devagar, a força da gravidade poderia, eventualmente, forçar a interrupção dessa expansão e, então, começar o processo de contração. Entretanto, se ele estivesse se expandindo acima de uma determinada velocidade crítica, a gravidade jamais seria obstáculo capaz de pará-lo e o universo continuaria a se expandir para sempre. [...] (HAWKING, 1988/2000, p. 67)

Se o universo tevê início com o Big Bang, o que existira antes? O nada? Havia eventos antes?

[...] mesmo se tivessem existido eventos antes do Big Bang, não se poderia usá-los para determinar o que aconteceria depois, porque a previsibilidade acabaria com a grande explosão. Correspondentemente, se, como é o caso, sabemos apenas o que aconteceu a partir da grande explosão, não podemos determinar o que teria acontecido antes dela. (ibidem, p. 76-77)

Os eventos anteriores, se existiram,

[...] não podem ter tido qualquer consequência e, portanto, não devem fazer parte de um modelo científico do universo. Devemos, assim, isolá-los do modelo e considerar que o tempo começou com o Big Bang (destaque meu) (ibidem, p. 77)

O filme Mr. Nobody (Bélgica, 2009), escrito e dirigido por Jaco Van Dormael, especula (investiga, analisa) situações em torno dessas teorias e outras mais como a teoria das cordas, a teoria do caos com o efeito borboleta. Os personagens recuam e avançam no tempo, alterando suas vidas e, ainda, vivendo múltiplas alternativas, impossíveis de acontecer na nossa atual realidade em que o tempo só avança. Na verdade só temos uma escolha por não termos, ainda, conseguido voltar no tempo.

O que havia antes do Big Bang pergunta-se no filme. A reposta é imediata:

Well, we see, there was not before because before the Big Bang time did not exist. Time is a result of the

expansion of the universe

itself. But what will

happen when the

universe has finished

expanding, and the

movement is reversed?

What will bet the nature

of time?

(Bem, vejamos, não havia antes porque antes do Big Bang o tempo não existia. Tempo é o resultado da expansão do próprio universo. Mas o que acontecerá quando o universo deixar de se expandir e o movimento é revertido? Qual será a natureza do tempo?)

O narrador que, na verdade, é Nemo, o personagem central do filme, nesse momento um adulto jovem, de paletó e gravata, dirigindo-se ao espectador, continua raciocinando:

Se a teoria das cordas (string theory) é correta, o universo possui 9 dimensões espaciais (9 SPATIAL DIMENSIONS) e uma dimensão temporal (1 TEMPORAL DIMENSION). Podemos imaginar que no começo todas as dimensões estavam mescladas e durante o Big Bang 3 dimensões espaciais que conhecemos, como: alto, abaixo e profundo e uma dimensão temporal que é o tempo, foram utilizadas. As outras 6 seguiram, permaneceram minúsculas e juntaram suas forças. E se vivemos em um universo com dimensões relacionadas, como podemos distinguir entre ilusão e realidade? O tempo como o conhecemos é uma dimensão onde experimentamos uma única direção. Mas e se uma das dimensões adicionais, sem dimensão espacial for mais temporal?

Essas explicações são ilustradas por imagens que aparecem intercaladas ou fundidas com a imagem de Nemo.

Na verdade, as explicações sobre o universo só são dadas a partir dos 20 minutos de filme quando já foram apresentadas várias cenas inusitadas, estranhas. Vamos a elas.

Quando o filme se inicia o espectador vê à esquerda um pombo tentando alcançar uma folha, no alto da gaiola onde ele está preso. Ele tenta, mas não consegue alcançá-la e, então, com o bico, vai aproximando, para baixo da folha, um pequeno bloco alaranjado que inicialmente estava colocado no lado oposto, até que a ave alcança o que quer. Enquanto essa cena é mostrada, no lado direito aparecem os créditos do filme. Terminados os créditos, nova experiência com um pombo é apresentada, em imagens em preto e branco.

Agora o pombo está em uma caixa metálica, na qual há um dispositivo elétrico que, tocado pelo bico da ave, abre uma janelinha e o pombo acessa alimento fora da jaula. Um narrador fez a descrição da cena:

Como a maioria das criaturas vivas, os pombos rapidamente associam aprendizagem como na alavanca de madeira. Mas quando se faz automaticamente [a abertura da janelinha] a cada 20 segundos o pombo se pergunta: o que fiz para merecer isto? [O pombo é mostrado em detalhe] E começa a mover suas asas. Continuará para ver a influência, o que acontece. [ e o pombo se alimenta depois que a janelinha se abre]. Chamamos a isto de “A superstição do pombo”.

Em seguida a tela escurece. Uma figura luminosa de traços curvos, simétrica, vai se concentrando até definir

MR. NOBODY

A seguir as imagens passam a ocupar a tela toda. Surge, em grande plano, com os olhos azuis bem abertos e imóveis, a imagem de um jovem. Uma voz murmura: “O que fiz para merecer?” à semelhança do pombo. A câmera vai se afastando, o rapaz está deitado, cobrem-no com um lençol. Focam-se os pés dele onde está presa uma etiqueta. Na verdade, é um cadáver que está sendo guardado em um armário de aço. A cena muda.

Detalhe do mesmo homem, abrindo os olhos dentro d’água. Ele está no banco de direção de um automóvel no fundo de um rio. Tenta escapar de dentro do veículo, bolhas de ar saem-lhe da boca. Ele se debate, o carro vai afundando. Abre e fecha a boca. A cena muda.

Agora o mesmo jovem está se levantando abruptamente de dentro de uma banheira onde estava mergulhado, quase sem ar, sufocando, abre a boca para respirar; na verdade como uma continuidade da cena no carro. Ele observa o ambiente. Quando olha para frente vê um homem sentado que o encara. O homem empunha um revólver e atira à queima roupa no rapaz. Novo corte.

Grande plano do mesmo rapaz, o rosto coberto por uma pequena camada de gelo. Ele fecha e abre os olhos repetida e rapidamente. Está dentro de uma cápsula individual, em pé, parece que está em uma nave espacial, em uma cápsula de sobrevivência. São inúmeras cápsulas dispostas uma ao lado da outra, com pessoas, estão em uma grande estação/nave espacial. Meteoritos a atingem. Há uma forte trepidação. A enorme nave, vista do espaço, explode violentamente. Novo corte.

A mão envelhecida de um homem é mostrada pendendo de uma espécie de cama. Depois vem surgindo a imagem de um homem, completamente calvo, sua cabeça e rosto são pintados com traços negros em simetria ao centro do rosto. Ele pergunta: “Como tem passado desde a última vez?”. Uma sombra humana à frente da câmera indica uma pessoa à qual ele se dirige. Em seguida é mostrado, em primeiro plano, o rosto de um homem extremamente envelhecido, tirando as mãos do rosto, a pele é muito enrugada. O velho fala:

- Eu o conheço?

- Nos vemos toda semana. Sou o Dr. Fildheim.

Os dois estão um diante do outro, sentados, uma mesa entre eles, ao fundo prédios de uma cidade futurista. O doutor fala:

- E quem é você?

- Ninguém (Nobody). Nemo, Ninguém.

- É um nome incomum, não crê?

Pequenos dispositivos, olhos eletrônicos, flutuam no ar observando o velho.

- Às vezes as pessoas me chamam de Sr. Craft. C-R-A-F-T. Não consigo lembrar de coisa alguma.

Ele ri, um riso de velho; o outro também ri, um riso de médico.

- Qual foi a primeira pergunta que fiz?

- Eu não sei.

- Pode me dizer quantos anos você tem?

- Tenho 34. Nasci em 1975.

- Se importa de eu olhar as suas mãos?

O olho eletrônico, batendo asas, continua focando o velho. A câmera se desloca sobre a mesa onde está um jornal aberto onde se lê sem muita nitidez:

NNY

THE LAST [][][][][[]

- Não deve se não quiser.

A câmera, posicionada como se fosse os olhos do velho fixa as mãos dele próprio, trêmulas, engelhadas. O outro fala:

- Há um espelho diante de você.

Nemo olha-se, vira o rosto contrafeito: “No, I...”. O doutor pergunta:

- Em que ano estamos?

- 2009. Eu tenho 34. Nasci em Suderland, no dia 9 de fevereiro de 1975.

- Então suponho que deve ser seu aniversário.

E o doutor empurra o jornal para o velho:

NNY

SATURDAY FEBRUARY 9TH 2092

THE LAST MORTAL

TURNS 118

Sábado 9 de fevereiro de 2092

O último mortal atinge 118

- Tenho 34 (I’ m thirty four). Quero acordar. Eu tenho que acordar! [grita].

De fato ele acorda, É o mesmo homem jovem de olhos azuis que foi mostrado morto, depois dentro de um carro submerso, na banheira e na estação espacial. Agora ele ergue-se bruscamente em uma cama, respirando forte, como se despertasse de um pesadelo. Ele usa uma aliança de casamento na mão esquerda. Desliga um aparelho que emitia um sinal, deve ser um despertador, levanta-se da cama, coloca óculos. A câmera foca o rosto iluminado de uma mulher loura, dormindo na cama, quando ele abre uma cortina em uma janela. A mulher passa a mão pelo rosto, ainda de olhos fechados, e fala: “Não Nemo, o sol machuca meus olhos.” Ele fecha a cortina e começa a inspecionar o ambiente, como se não lhe fosse familiar. Olha-se em um espelho, enche um copo na torneira do lavatório, leva-o à boca fitando-se no espelho, como para se reconhecer. Engole a água. Está pensativo. Sai do compartimento e vai acordar os filhos. Um passa por ele, ele o empurra: “Ei amigo.” Entra em outro quarto: “Bom dia meus anjinhos. Hora de ir para a escola. Vamos.” Depois fala para a mulher: “Elise, vou levar as crianças para a escola.” Ao se aproximar da porta de saída da casa, um envelope surge da abertura para correspondência. Ele o inspeciona rapidamente e olha pela janela, para fora da casa. Uma cena inusitada é apresentada a ele e ao espectador: o mensageiro caminhando para trás, de costas, como se percorresse o caminho inverso que fez ao entregar a correspondência, como se o filme voltasse, como se o tempo retrocedesse. E vem mais coisa inusitada.

Nemo abre o envelope; é uma foto de família: ele, mulher e duas crianças. Só que a mulher e as crianças são outras, não é a mulher que está com ele, Elise, e nem os filhos. Um dos garotos, louro, está batendo bola dentro de casa, ele o repreende: “Paul, fique quieto.” Mas o garoto esclarece: “Não me chamo Paul.” Ele se espanta. A tela escurece e em seguida uma imagem vai se formando, inicialmente borrada, indefinida, depois fica nítida: “Papai? Papai.” É um garoto achinesado, cabelos pretos, o da foto. Chega uma mulher, esta também da foto, de cabelos pretos, e fala: “Paul, não acorde seu pai.” Nemo: “Elise.” Ela:

- Sou eu, Jeanne.

- Eu estou morto?

- Vá para dentro. [ela falando para o garoto].

- Quem é Elise? [ela pergunta]

- Não conheço ninguém com esse nome.

- Você está cansado Nemo, deve descansar. Eu coloquei a TV para você. Vou para dentro, o sol machuca meus olhos.

Ao ouvir essa última observação, ele, naturalmente lembrando-se do mesmo comentário feito por Elise se espanta: “O quê?” Ela repete: “O sol machuca meus olhos.” Ele fica pensativo. A cena é cortada e avança-se, novamente, para o ano 2092.

Nemo, ancião, está deitado, um eletro encefalograma dele está sendo mostrado na tela. Na verdade, seu corpo está exposto na lateral de um prédio, há um painel transparente do lado externo. Arranha-céus em forma de picos indicam uma cidade de arquitetura futurista. Em um grande cilindro transparente aparece um jovem com imagens repetidas. Ele é um apresentador de notícias, Julian Marshall, um jovem alegre carregado de trejeitos, faz uma reportagem sobre “o último mortal”. Julian se apresenta com afetação de gestos, carrega no colo um porco branco e se vangloria de tê-lo; duas mulheres aparecem também orgulhosas de seus porcos. “O Senhor Ninguém tem 117 anos e não tem nada. Não tem estes adoráveis porcos personalizados.” registra o inquieto apresentador. Nemo “será o último humano que vai morrer de velhice natural.” Em seguida ele entrevista o Dr. Fildheim:

- Agora doutor, não se encontram registros de sua identidade. Nada sobre seu passado.

-Não sabemos quem é o Senhor Ninguém, nem ele próprio sabe. A memória do nosso paciente está confusa. Mas não é estranho que em um determinado estágio da doença, que suas velhas lembranças venham à tona em grandes detalhes.

Várias pessoas assistem a entrevista, projetada no ar em imagens virtuais; é a sociedade tecnológica da era da informação, por sinal criticada por Dormael ao caracterizar um ridículo apresentador e que considera, como algo importante, a posse que as pessoas podem ter de um porco doméstico personalizado.

Vem em seguida nova entrevista do médico com o homem que completa 118 anos de idade. Ele apela para o hipnotismo e induz o velho à regressão a tal ponto que atinge momento anterior ao nascimento de Nemo.

Se Jaco Van Dormael já surpreendeu com situações e fatos inusitados fora da realidade corrente na qual o tempo tem um sentido único e também apresentando teorias sobre a criação do universo, agora ele vai avançar ainda mais e especular sobre a vida antes da vida.

Como disse, a regressão chegou antes do nascimento de Nemo. Vejamos como foi apresentado esse momento. A sequência começa com tela branca e o foco em um unicórnio também branco. Pequenos vultos se movimentam, o ambiente é etéreo, celestial. Uma voz infantil: “Não posso recordar muito antes do meu tempo.” Os vultos vão ficando nítidos, são crianças, usam calcinhas brancas, andam de um lado para o outro. A criança continua: “Eu estava no céu, com aqueles que ainda não tinham nascido.” Música celestial, grande plano de um menino de olhos azuis, é Nemo: “Antes de nascermos já sabemos o que vai acontecer.” Plano de conjunto com o unicórnio e as crianças, ambiente enevoado. Nemo se aproxima, ele olha para cima e vê dois anjos em figura de mulher, com asas, flutuam no ar. Um deles aproxima-se e toca com o indicador os lábios de uma criança. Nemo explica: “Quando chega a sua hora os anjos colocam um dedo na sua boca.. E colocam um sinal no lábio superior. Isso significa que você esqueceu tudo. Mas o anjo se esqueceu de mim.” Ele não é tocado pelo anjo. Várias crianças afundam nas nuvens, em direção à terra. “E então você tem que encontrar o seu papai e mamãe, não é fácil escolher.”

Van Dormael continua inovando. Ele muda o estilo da narrativa. Para que Nemo possa escolher seus pais, vários casais se auto-apresentam a Nemo, na verdade ao espectador, olhando diretamente para a câmera e falando sobre suas expectativas em relação a um filho. A diversidade de tipos que se oferecem ao menino dá muitas opções de escolha a ele. Nemo escolhe um casal que, de início, se mostrou discreto, sem falar. Nemo comenta a escolha:

- No final, optei por eles. Porque a mulher cheirava bem, e o homem disse: “Bem, eu posso te dizer como nós nos encontramos satisfeitos. Foi o destino. Já ouviu falar do efeito borboleta?”

E Dormael cria uma fantasia interessante sobre a fantasia da frase que define o efeito borboleta, ilustrativo da teoria do caos. Vejamos.

Um oriental, parece ser um japonês, observa uma borboleta pousada em uma planta de pétalas brancas. A borboleta voa, o homem a acompanha com os olhos. Voa sobre um terreno florido, depois se transforma em uma folha, vai subindo, atravessa as nuvens, vai para longe, depois começa a descer em direção a casas e ruas, flutua em volta de um homem; a folha cai no chão, o homem pisa nela, escorrega, fica caído no chão. Uma mulher corre para ajudá-lo, abaixa-se, olha com interesse o homem, ele retribui a expressão. São os pais que Nemo escolheu, em seu primeiro encontro explicado pela teoria do caos, a borboleta que veio de Tóquio

Os primeiros anos da criança com os pais são apresentados resumidamente, um garoto esperto, pais nem tanto, até que o menino pergunta à mãe:

- Por que lembrar do passado, mas não do futuro? Quando você pergunta a mami diz: “Pare de perguntar o por quê.” É complicado.

É o gancho para “lembrar” do futuro. Nemo, velho, está deitado, dormindo. Alguém entra no quarto, furtivamente. Inadvertidamente chuta um tabuleiro de damas que está no chão; as peças, ao se espalharem, fazem barulho. Nemo acorda. O rapaz que chegara diz que é um jornalista. Na parede do quarto, em caracteres luminosos, somos lembrados da hora e dia correntes:

14:11

FEB/11/1092

O rapaz quer entrevistar Nemo, trouxera um antigo gravador de fita, conseguido no museu da universidade. Apesar da negativa inicial, depois que o jornalista aciona o gravador, Nemo acaba falando:

- Sou o Senhor Ninguém. Um homem que não existe.

- Recorda como era o mundo antes de cruzar a imortalidade?

- O quê?

- [...]. Infinita renovação celular. Como era quando os homens eram mortais?

- Havia automóveis e contaminação. Fumávamos cigarro. Comíamos carne. Fizemos tudo o que podíamos e foi maravilhoso. Na maioria das vezes nada acontecia. Como uma película francesa.

- E sexualmente? Antes que o sexo fosse obsoleto?

Nemo ri cinicamente: ”Nós transávamos. Todo mundo sempre mantinha relações sexuais. Apaixonávamos-nos. Nós nos apaixonávamos... Que horas são?”

Até esse momento do filme, como já registrei antes, foram 20 minutos de projeção. Logo após Nemo perguntar as horas há um corte e vem uma imagem que ilustra a explosão do Big Bang e são dadas as explicações sobre a origem do universo e as teorias correlatas, feitas pelo próprio Nemo, um jovem adulto na função de apresentador. As explicações científicas, que duram cerca de 70 segundos são inseridas como uma reportagem e foi analisando essa sequência que comecei a falar sobre Mr.Nobody.

A exposição de Nemo sobre o universo é encerrada com um corte que inicia uma nova explicação sobre o tempo. Entra agora uma voz infantil, é Nemo aos nove anos:

Se você misturar o purê com o molho, você não pode separá-los depois, e será para sempre [a realização da mistura é mostrada em imagens de acordo com a descrição]. A fumaça sai do cigarro de papai, mas nunca volta a entrar [também é mostrada a cena]

São mostradas na tela as engrenagens de um relógio e em seguida o mostrador é focado com o ponteiro dos minutos avançando.

Não podemos retroceder [vários pratos com docinhos diferentes são mostrados para o garoto]. Por isso que é difícil escolher. Tem que fazer a escolha correta. Enquanto não escolhe tudo continua a ser possível.

E Nemo se afasta da vitrine onde estavam expostos os docinhos, sem escolher nenhum. Ele joga uma moeda para cima e a apara na mão (é um cara ou coroa). Encontra no caminho três meninas juntas; cumprimentam-no; são elas: Anna, Elise e Jeanne.

O tempo avança, agora é enfocado o casamento de Nemo e Anna, grande plano dela e dele. Na mudança de plano é o casamento dele com Elise, grande plano dela e dele; e nova mudança e ele casa com Jeanne, grande plano dela e dele. Ou seja, ele teve, de fato, três escolhas diferentes. Em tempos diferentes? Em espaços alternativos? Em tempos diferentes e espaços alternativos? Em seguida ele beija as três, uma de cada vez em cenas separadas. Depois, grandes planos das três, uma de cada vez, quando crianças; e as três juntas sentadas em um banco. As próximas cenas são as saídas da igreja após os casamentos. Cada saída é enfocada em uma porta diferente da igreja, são três portas frontais. As mudanças são feitas após as passagens de automóveis à frente da câmera que encobrem a cena principal. Após a última saída da igreja, vem um plano de conjunto das três meninas. Estas sequências são cuidadosamente montadas por Dormael e indicam, com clareza, as três vidas de Nemo que serão mostradas no desenvolvimento do filme. O diretor é extremamente detalhista e cuidadoso nas composições.

Em 23 minutos de filme, completados com o citado plano das três meninas Anna, Elise e Jeanne, com riqueza de informações e detalhes, incluindo explicações de teorias científicas sobre o início e o fim do universo e a instigante reversão do tempo, Jaco Van Dormael dá ao espectador, melhor premia o espectador com um painel dos mais diversificados e bem construídos que já vi no cinema.

A história de Nemo Ninguém, que nasceu em 1975 e ainda está vivo em 2092, é o mistério que vai sendo desvendado em uma narrativa cinematográfica da melhor qualidade. Aliás, o cineasta associa com rara habilidade, elementos heterogêneos de composição, necessários quando se trata de percorrer um grande período de tempo, no caso 118 anos. Passa-se da segunda metade do século XX à última década do XXI, quando a viagem ao planeta Marte se realiza com muitos ocupantes em uma mesma nave, tudo controlado por computador.

Do homem que comia carne, fumava, fazia sexo, apaixonava-se e morria chega-se a uma sociedade tecnológica da era da informação na qual o sexo se tornou obsoleto, faz-se viagens interplanetárias e o ser humano atingiu a imortalidade pela infinita renovação celular.

O início de tudo, o Big Bang com a expansão do universo e o fim com a contração, o Big Crunch, avanço e reversão do tempo, são as referências básicas de Mr. Nobody, mas o foco principal é mesmo a tagédia humana, é a vida entre homem e mulher, são os relacionamentos interpessoais, os pais, a família, encontros e desencontros que Jaco Van Dormael revela desnudando a vida de Nemo com suas três mulheres e os relacionamentos consequentes que começam logo que ele veio à terra para nascer, sendo que a primeira decisão que ele teve que tomar foi a escolha dos pais. Na verdade, por trás de tudo está a complexidade e dificuldade em se tomar decisões uma vez que não se pode retroceder, o tempo tem um único sentido.

Vamos retomar a odisséia do Senhor Ninguém de onde paramos: as três meninas vistas em um mesmo plano, ou seja, nesse momento ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Aliás, melhor, antes, falar da popularização de conhecimentos científicos...

Referência

HAWKING, Stephen W. Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. Tradução de Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1988/2000.